A recente tentativa de Xi Jinping de reaquecer a economia chinesa com um pacote audacioso de estímulos econômicos gerou entusiasmo, especialmente entre analistas brasileiros. Afinal, uma recuperação econômica da China poderia impulsionar a demanda por commodities, o que, em tese, seria uma boa notícia para o Brasil, um dos maiores exportadores de matérias-primas do mundo. No entanto, é importante analisar com mais cautela os riscos e as consequências de uma intervenção governamental massiva em um cenário já bastante frágil.
O pacote de Xi inclui medidas como a redução agressiva de taxas de juros, incentivos ao refinanciamento de hipotecas e linhas de crédito para empresas recomprar ações. Essas políticas são semelhantes a soluções adotadas em outros países em momentos de crise, incluindo o Brasil, que recorreu a pacotes de estímulo em diversas ocasiões para tentar aquecer uma economia em dificuldades. O impacto inicial é previsível: o mercado reage positivamente, as ações sobem e há um sentimento de alívio momentâneo. No entanto, as medidas levantam preocupações sobre seus efeitos de médio e longo prazo.
O Perigo de Estímulos Inflacionários
Ao observarmos a história econômica recente, fica claro que pacotes de estímulo, se não bem planejados, podem ter o efeito colateral de criar uma inflação descontrolada. Isso ocorre porque, ao aumentar o crédito disponível e reduzir artificialmente as taxas de juros, há um aumento no consumo e, eventualmente, no endividamento, sem que haja um crescimento estrutural na economia. A inflação, resultado de um excesso de dinheiro circulando em relação à quantidade de bens e serviços disponíveis, pode ser uma consequência inevitável dessas políticas.
Na China, que já enfrenta desafios estruturais sérios, como o colapso do mercado imobiliário e uma população cada vez mais cautelosa com seus gastos, essa abordagem pode ser arriscada. Os chineses, tradicionalmente investidores em imóveis, perderam a confiança nesse mercado após a recente bolha imobiliária, o que os tornou muito mais conservadores em suas decisões financeiras. Mesmo com juros baixos e crédito facilitado, é incerto se a população retomará o consumo no nível esperado pelo governo.
O Voo de Galinha ou de Dinossauro?
No Brasil, estamos familiarizados com o conceito de "voo de galinha" – um crescimento rápido e curto, seguido de uma queda abrupta. No caso da China, devido à escala de sua economia, podemos estar presenciando um "voo de dinossauro". As medidas de estímulo podem gerar um crescimento temporário, mas há grandes chances de que essa recuperação não seja sustentável. Se a população não voltar a consumir como esperado ou se o mercado imobiliário não se recuperar, o impacto das medidas pode se dissipar rapidamente, levando a uma nova crise.
Além disso, há o risco de que a China, em vez de resolver seus problemas econômicos de forma orgânica, esteja apenas adiando o inevitável. A recuperação baseada em estímulos governamentais não aborda os problemas estruturais da economia, como o excesso de imóveis vazios e o enfraquecimento do poder de compra da população. Sem essas reformas profundas, o país pode enfrentar uma nova desaceleração econômica, possivelmente pior do que a atual.
O Impacto no Brasil
Para o Brasil, uma recuperação chinesa seria benéfica, especialmente para setores como o agronegócio e a mineração, que dependem da demanda chinesa por commodities. No entanto, é importante que o Brasil não baseie suas expectativas de crescimento apenas na recuperação de um parceiro comercial externo. A melhora da economia chinesa pode ser apenas temporária, e o Brasil deve estar preparado para os impactos de uma possível nova desaceleração no médio prazo.
Além disso, uma China inflacionada e com uma economia fragilizada pode afetar negativamente o comércio global, o que também traria consequências para o Brasil. Embora o pacote chinês possa gerar um fôlego momentâneo, as incertezas sobre o futuro são grandes. É preciso cautela ao comemorar um estímulo que, no fundo, pode ser insustentável.
Considerações Finais
O pacote de estímulo de Xi Jinping pode, sim, gerar uma recuperação temporária, mas os riscos de um colapso futuro são elevados. O Brasil deve acompanhar com atenção os desdobramentos dessa política na China, mas sem depender exclusivamente dela para seu próprio crescimento. A experiência já nos ensinou que pacotes de estímulo governamentais podem criar bolhas econômicas e, no final das contas, agravar a situação ao invés de resolvê-la.
Portanto, a recuperação da China pode até beneficiar o Brasil no curto prazo, mas devemos estar cientes de que esse voo de dinossauro pode terminar em uma aterrissagem turbulenta. O caminho para uma economia global sustentável passa por reformas profundas e crescimento orgânico, e não apenas por medidas paliativas que estimulam o consumo de maneira artificial e temporária.
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