Nos últimos tempos, o Japão tem enfrentado um dos maiores desafios de sua história: a queda drástica nas taxas de natalidade. A previsão é alarmante: em 50 anos, a população do país pode encolher em até 30%, e 40% dos japoneses serão idosos. Diante desse cenário desolador, o governo de Tóquio anunciou uma tentativa ousada, mas desesperada, de reverter essa tendência: a redução da jornada de trabalho para 4 dias por semana (4x3) para seus 160.000 funcionários públicos, começando em abril de 2025. A medida busca dar mais tempo para os cidadãos conciliarem carreira e família, principalmente incentivando o aumento da taxa de natalidade. Será que isso realmente vai funcionar? É o que tentamos entender neste artigo.
Primeiro, é importante destacar que, ao contrário do debate recente no Brasil sobre a jornada 4x3, que causou frenesim sem grandes resultados, o Japão enfrenta uma crise real e iminente. O governo metropolitano de Tóquio, sob a liderança da governadora Yuriko Koike, busca uma solução para um problema que vem sendo um pesadelo para o país: a rápida redução da sua população ativa, combinada com o envelhecimento da sua sociedade. E o aumento na taxa de natalidade é a principal resposta que tentam oferecer.
Mas a pergunta que fica é: isso realmente vai funcionar? E por que, até agora, as iniciativas semelhantes no país não tiveram sucesso? A verdade é que, em um país que já se orgulha de ter uma das mais longas expectativas de vida do mundo, a queda na natalidade não é apenas uma consequência natural do envelhecimento da população, mas um reflexo das duras realidades econômicas e sociais. Com um custo de vida elevado e uma economia em estagnação, muitos japoneses simplesmente não veem filhos como uma prioridade.
É aqui que a redução da jornada de trabalho entra. A ideia do governo de Tóquio é que, ao diminuir o tempo de trabalho, os pais, especialmente as mulheres, terão mais tempo para conciliar a vida profissional e familiar, incentivando assim a maior taxa de natalidade. Porém, essa medida parece, no melhor dos cenários, um paliativo.
Os dados mostram que os japoneses, ao contrário do que o governo acredita, não estão dispostos a aceitar uma redução na carga de trabalho se isso implicar em uma diminuição nos salários. Desde 2021, o governo já havia incentivado jornadas mais curtas, mas a adesão foi pífia. Apenas 88% das empresas do país aderiram a uma escala de trabalho reduzida, e entre grandes corporações como a Panasonic, a adesão foi mínima – de 63.000 funcionários oferecidos a redução, apenas 150 aceitaram. Isso revela um grande descompasso entre o que os governantes consideram como solução e a realidade econômica enfrentada pela população.
No fundo, a crise demográfica do Japão não pode ser resolvida com medidas superficiais como a redução da jornada de trabalho. O problema é muito mais profundo e estruturado. O Japão tem enfrentado décadas de políticas econômicas intervencionistas que desestabilizaram sua economia. Sua moeda, o iene, perdeu poder de compra, e a qualidade de vida da população tem piorado, o que leva a uma aversão a compromissos de longo prazo, como ter filhos.
Além disso, a mudança cultural é um fator fundamental. Durante muito tempo, o Japão, assim como outros países desenvolvidos, incentivou o controle de natalidade e a ideia de que menos filhos seria mais sustentável. O resultado disso foi uma sociedade que, embora rica, vê a paternidade como um fardo. Essas ideias entraram no tecido social de maneira tão forte que uma simples canetada do governo, como a redução da jornada de trabalho, não será suficiente para reverter esse curso.
Por fim, a realidade é clara: a solução para o problema demográfico japonês não está nas mãos do governo ou em políticas públicas mal direcionadas. Caso exista uma solução, ela virá de uma mudança natural na mentalidade da sociedade, e será resultado de um movimento orgânico, impulsionado pelo mercado, pela economia e, quem sabe, pela própria tecnologia. O uso da inteligência artificial para resolver lacunas na força de trabalho pode ser uma das saídas para o futuro do país.
Tóquio, em sua tentativa desesperada de contornar uma crise profunda, está apenas revelando o quão complexo é o problema da queda nas taxas de natalidade. Se os japoneses continuarão a ter filhos ou não, será uma decisão muito mais pessoal e econômica do que uma resposta a medidas estatais. E, por mais que o governo tente, não há garantias de que seu novo plano realmente vá surtir efeito.
Com o envelhecimento da população e a economia em declínio, as medidas adotadas podem ser insuficientes, e o problema demográfico japonês deve continuar sendo uma pedra no sapato do governo.

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