“Quando até o riso é considerado crime, não é a piada que está em julgamento, mas a própria liberdade.”
O riso é um ato de liberdade. É o momento em que o ser humano desarma o medo, desmistifica o poder e ri do absurdo da própria existência.
Mas em 2025, rir virou um ato de resistência.
A prisão do comediante irlandês Graham Linehan, criador de séries icônicas como Father Ted e The IT Crowd, foi apenas mais um capítulo na guerra silenciosa contra o humor — uma guerra travada em nome da “segurança”, da “inclusão” e da “proteção das minorias”, mas que, na prática, vem transformando piadas em crimes e comediantes em inimigos do Estado.
Do palco à prisão: o novo campo de batalha da liberdade
Linehan foi preso no aeroporto de Heathrow por causa de três tweets.
Sim, três frases publicadas numa rede social foram suficientes para justificar uma operação policial armada.
O crime? “Discurso de ódio”.
O contexto? Humor.
Se fosse alguém incitando violência real — como o conselheiro do Labour Party, Ricky Jones, que clamou para “decepar opositores políticos” — talvez houvesse sentido.
Mas não. Linehan fez uma piada sobre o absurdo de permitir homens biológicos em espaços femininos e escreveu, com ironia:
“Se um homem que se identifica como mulher entrar num espaço exclusivo para mulheres, chame a polícia. Se nada mais funcionar, dê um soco nas bolas dele.”
Foi o bastante para ser algemado, interrogado e forçado a excluir suas contas nas redes sociais como condição para ser libertado.
Um caso digno de ditaduras teocráticas, mas ocorrido no coração da Europa.
O humor virou alvo do Estado — e o pretexto é sempre o mesmo
As leis que justificam esse tipo de perseguição são apresentadas ao público com títulos nobres e enganosos.
No Reino Unido, a “Online Safety Act” foi vendida como uma medida para proteger crianças e combater discursos de ódio.
Mas, assim como o PL das Fake News no Brasil, o que ela faz de fato é dar ao Estado o poder de decidir o que é “seguro” dizer — e o que é “perigoso demais” para ser dito.
De repente, o comediante não é mais um provocador social, mas um “potencial criminoso”.
A sátira, que nasceu para desafiar o poder, se tornou refém do poder.
E quando o humor precisa pedir permissão para existir, é sinal de que a liberdade já foi embora há muito tempo.
O cancelamento cultural virou braço da censura estatal
O caso de Linehan não é um acidente isolado.
Ele é o espelho de uma tendência global: a fusão entre a cultura do cancelamento digital e o aparelho repressivo estatal.
Antes, o humorista era cancelado nas redes, perdia contratos e tinha shows boicotados.
Agora, ele pode ser preso, processado e silenciado por ordem judicial.
O Festival Fringe de Edimburgo, que por décadas foi o refúgio da comédia experimental e da irreverência britânica, hoje age como uma delegacia cultural.
Shows cancelados, cartazes censurados, nomes de espetáculos alterados à força — tudo para não “ofender sensibilidades”.
Em 2025, os comediantes Markel Kif e Rich Shirry foram obrigados a renomear seu show após uma onda de indignação no TikTok.
A sátira era sobre criminosos, mas a militância online concluiu — sem sequer assistir ao show — que era “ofensiva”.
O festival cedeu, o nome foi trocado, e a arte foi castrada.
Essa é a nova forma de censura: o medo de ofender se tornou o censor mais eficiente que o governo poderia desejar.
O Brasil não ficou de fora dessa guerra
A perseguição ao humor não é exclusividade europeia.
Aqui, o comediante Léo Lins foi condenado a 8 anos de prisão por piadas — repito: por piadas — feitas em seu show Perturbador.
Seu espetáculo foi retirado do YouTube por ordem judicial, e o humorista passou a ser tratado como criminoso reincidente por “ofender minorias”.
As mesmas autoridades que ignoram crimes violentos e corrupção agem com brutalidade contra um artista cujo único “delito” foi fazer rir de temas proibidos.
E o mais trágico é que boa parte da classe artística — outrora vítima da censura militar — aplaude a censura progressista.
Os que antes gritavam “arte não se cala!” agora repetem “certas piadas não se fazem!”.
Ou seja: mudaram o censor, mas mantiveram a censura.
O humor é o último bastião da liberdade
Desde Aristófanes na Grécia Antiga até George Carlin no século XX, o humor sempre foi a ferramenta mais poderosa contra a tirania.
A piada é o espelho que mostra o ridículo do poder, o exagero das ideologias, o absurdo das certezas.
E é exatamente por isso que todo regime autoritário teme o riso.
Porque quem ri não teme.
E quem não teme, não obedece.
O humor é a prova viva de que ainda pensamos por conta própria — e é por isso que ele precisa ser domesticado.
A censura estatal e a patrulha moral não buscam proteger ninguém; buscam impedir que a sociedade perceba o quanto tudo se tornou uma farsa.
A cultura da ofensa: quando o ego virou política
Vivemos numa era em que a identidade pessoal se tornou dogma religioso.
Ser “ofendido” virou um direito.
E quanto mais alguém se declara ofendido, mais poder ganha sobre os outros.
É o mecanismo perfeito para quem quer controlar discursos:
basta se dizer ferido para exigir silêncio.
A consequência é o que já estamos vendo — artistas autocensurados, comediantes neutros, piadas domesticadas.
A graça desaparece, e com ela desaparece a honestidade.
O medo de ofender destrói o impulso natural de observar e questionar.
Mas o humor nunca foi sobre agradar — ele é sobre revelar.
E a verdade, quando dita de forma engraçada, dói mais do que qualquer discurso político.
A responsabilidade individual substituída pela tutela estatal
O argumento dos censores é sempre o mesmo: “precisamos proteger as pessoas do discurso de ódio”.
Mas quem decide o que é ódio?
Quem define o limite entre uma crítica ácida e uma agressão?
No modelo libertário, cada indivíduo é dono de sua mente, de sua fala e de sua reação.
Se uma piada te ofende, você tem o direito de não ouvir, de sair do show, de desligar o vídeo — mas não de calar o artista.
Censura é sempre um ato de violência contra a liberdade de escolha.
E a ideia de que o Estado deve “proteger” os cidadãos de palavras ofensivas é o primeiro passo para criminalizar o pensamento divergente.
Quando a comédia morre, a tirania sorri
A história é clara: nenhum regime autoritário tolera humor.
Stálin mandava prender caricaturistas.
Mao Tsé-Tung proibia piadas sobre o Partido.
E no Brasil de hoje, ministros da Suprema Corte decidem o que pode ou não ser dito em um palco.
O riso é o último espaço de resistência, e é por isso que querem destruí-lo.
O humor escapa do controle. Ele é espontâneo, imprevisível, anárquico — exatamente o oposto do que o Estado deseja.
Por isso, quando prendem um comediante, não estão punindo uma piada.
Estão advertindo toda a sociedade: “vocês só podem rir quando permitirmos”.
O preço de viver em uma sociedade sem humor
Uma sociedade que tem medo de rir se torna uma sociedade doente.
O riso é uma forma de inteligência, de distanciamento emocional, de sobrevivência mental.
Sem ele, só resta o ressentimento e o fanatismo.
A cultura do cancelamento é o espelho de uma geração que troca maturidade emocional por controle coletivo.
E o Estado, percebendo essa fragilidade, usa o vitimismo como ferramenta política.
Em nome da “proteção”, nos tiram o direito de rir — e, pouco a pouco, o direito de pensar.
Conclusão: a liberdade de rir é a liberdade de ser
O humor é a linguagem universal da liberdade.
Quando ele morre, o que vem em seu lugar é o medo — o medo de dizer, de pensar, de existir fora da cartilha.
Hoje, a guerra contra o riso é a guerra contra o indivíduo.
E se não defendermos os comediantes — os que ousam dizer o que ninguém mais tem coragem —, amanhã seremos nós os proibidos de falar, escrever ou rir.
Como disse Léo Lins, condenado por fazer o que sempre fez:
“É muito injusto e até egoísta a dor opcional de alguns servir de justificativa para impedir o sorriso de outros.”
Eis o ponto: a liberdade de expressão não é sobre proteger o que é popular, mas o que é impopular, incômodo e provocador.
Porque, no fim das contas, o riso é o último refúgio dos livres.

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