“Imortalidade através da biotecnologia” — ou o delírio dos deuses de carne e osso
Soa como ficção científica — mas, segundo uma gravação vazada durante um desfile militar em Pequim, Vladimir Putin, Xi Jinping e Kim Jong-un estariam discutindo nada menos do que a imortalidade.
O microfone captou parte da conversa enquanto os três ditadores caminhavam para a celebração dos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, e o tema, inusitadamente, não era geopolítica, mas transplantes de órgãos e rejuvenescimento biotecnológico.
O tradutor de Putin teria dito:
“A biotecnologia está se desenvolvendo continuamente. Os órgãos humanos podem ser continuamente transplantados. Quanto mais você vive, mais jovem se torna, e pode até alcançar a imortalidade.”
Xi Jinping respondeu, confiante:
“Alguns preveem que neste século os seres humanos poderão viver até 150 anos.”
Kim Jong-un — talvez o mais cínico do trio — limitou-se a sorrir em silêncio.
Aparentemente, o clube dos autocratas quer levar a tirania além da biologia.
Mas será que isso é possível? E, mais importante, que tipo de mundo surgiria se os líderes nunca morressem?
A ilusão do corpo eterno
Antes de analisarmos o impacto político e filosófico, vale olhar o lado técnico.
É verdade que a biotecnologia avança rapidamente. Hoje já existem impressoras 3D de tecidos, órgãos artificiais, cultivos de células-tronco personalizadas e até experimentos de rejuvenescimento celular.
Em teoria, sim — poderíamos substituir órgãos defeituosos indefinidamente.
Mas a prática médica impõe limites claros: cada cirurgia é um trauma, e cada transplante exige supressão imunológica constante, o que enfraquece o corpo e o torna vulnerável.
O ser humano pode trocar fígado, rim, coração — mas não pode trocar o cérebro.
E o cérebro, com o tempo, envelhece, perde plasticidade e acumula danos irreversíveis.
Por isso, a promessa de “viver para sempre” é, por enquanto, um devaneio de quem confunde poder político com poder sobre a natureza.
O sonho autoritário da eternidade
É curioso que justamente os ditadores sejam os mais obcecados pela imortalidade.
De Alexandre, o Grande a Hitler, de Mao a Putin, todos acreditaram que poderiam transcender o tempo — seja pela glória, pela ideologia ou, agora, pela ciência.
A diferença é que, no passado, a imortalidade era simbólica: o “nome na História”.
Hoje, ela é biológica: a promessa literal de não morrer.
Mas imagine o impacto disso: um regime onde o governante nunca envelhece, nunca sai do poder e nunca é substituído.
A democracia já morreria de causas naturais; o autoritarismo, por sua vez, se fossilizaria.
E o mundo governado por seres “eternos” seria inevitavelmente um mundo sem renovação, sem mudança, sem esperança.
O tempo, que corrige os erros e renova as gerações, é o maior inimigo da tirania.
Por isso, tentar dominá-lo é o último ato de desespero dos que já acreditam ser deuses.
150 anos de vida — ou 150 anos de dominação?
Quando Xi Jinping fala em viver até 150 anos, há um detalhe que não se deve ignorar:
ele já tem 72.
Ou seja, ele está falando de duplicar sua própria expectativa de vida — o que, para um líder que eliminou a alternância de poder na China, soa menos como curiosidade científica e mais como projeto de perpetuação pessoal.
Mas mesmo que fosse possível estender a vida humana a esse ponto, o que isso significaria politicamente?
Mandatos eternos? Presidências hereditárias? Ditaduras sem sucessores?
A tecnologia, nas mãos erradas, não liberta — aprisiona.
E regimes que já controlam seus cidadãos até o nível digital (como China e Coreia do Norte) certamente não hesitariam em controlar também seus corpos.
O sonho da longevidade pode facilmente se transformar no pesadelo do controle biológico.
Imortalidade e justiça: um dilema sem fim
Mas, suponhamos que o impossível aconteça: a humanidade alcance mesmo a imortalidade.
O que aconteceria com conceitos como pena de prisão ou prisão perpétua?
Um criminoso condenado a 100 anos — num mundo onde ninguém morre — não estaria preso por tempo algum, comparado à eternidade.
A pena perderia o sentido.
E a única forma de punição “definitiva” seria a morte.
Paradoxalmente, num mundo de imortais, a pena de morte se tornaria mais tentadora — e o Estado, mais perigoso.
Em uma sociedade libertária, no entanto, a justiça não seria baseada no castigo físico, mas na reparação financeira e voluntária.
O objetivo não seria “fazer sofrer”, mas compensar o dano causado.
A morte e a prisão perpétua seriam substituídas por mecanismos contratuais, seguros e acordos — porque, quanto mais longa a vida, mais valioso se torna o tempo livre.
Riqueza infinita, desigualdade eterna
Outra questão surge: se ninguém morre, quem herdaria o quê?
O acúmulo de riqueza seria infinito — e o capitalismo estatal degeneraria em oligarquias perpétuas.
Imagine bilionários que vivem mil anos acumulando juros, terras e poder.
No sistema atual, a única força que limita isso é a mortalidade.
Ela redistribui oportunidades de forma natural, sem coerção.
A única forma de evitar uma elite imortal seria um mercado livre e descentralizado, onde a concorrência permanece viva e o mérito é o único caminho para prosperar.
Nesse cenário, moedas com oferta limitada, como o Bitcoin, seriam essenciais — evitando o colapso inflacionário que inevitavelmente viria de uma economia onde ninguém gasta e ninguém morre.
O Estado eterno — o pior pesadelo
Se o indivíduo viver para sempre, o Estado também tenderá a isso.
Burocracias, castas políticas e estruturas de poder se cristalizariam, até que a sociedade se tornasse uma pirâmide imóvel, exatamente como descrito por George Orwell em 1984.
“Em toda parte, a mesma estrutura piramidal, a mesma idolatria do líder semidivino, a mesma economia voltada para a guerra contínua.”
Orwell não previu a biotecnologia, mas entendeu a psicologia do poder absoluto:
ele não busca apenas controlar o presente — busca apagar o futuro.
E se o corpo nunca morre, o Estado que o controla também não precisaria morrer.
Essa é a distopia final: a imortalidade a serviço da opressão.
Superpopulação e eugenia — o caminho mais sombrio
Outro ponto inevitável: se ninguém morre, o planeta lota.
O que os governos fariam então?
A resposta é assustadora: controle de natalidade forçado, como já ocorreu na China com a política do filho único.
Agora, imagine isso num mundo de imortais, com inteligência artificial fiscalizando cada gestação.
Filhos ilegais seriam abortados ou escondidos — e a família natural se tornaria um crime.
No entanto, de uma perspectiva libertária, o corpo é a primeira e última propriedade de cada indivíduo.
O direito de gerar vida — ou não — pertence apenas a quem a cria, nunca ao Estado.
Por isso, qualquer tentativa de “planejar demograficamente” a sociedade é um atentado direto contra a liberdade individual.
O mercado de órgãos e o tabu moral
No meio desse debate, surge um tema ainda mais polêmico: o comércio de órgãos.
Hoje, é ilegal em quase todo o mundo — mas isso apenas empurra o mercado para a clandestinidade, onde o abuso é maior e os pobres continuam morrendo à espera de um transplante.
A solução libertária seria simples: legalizar o comércio voluntário de órgãos, com contratos transparentes e incentivos justos.
Se todos pudessem doar — e receber compensação por isso —, órgãos não faltariam.
Isso eliminaria o poder do Estado sobre a vida e a morte, e impediria que regimes autoritários usassem prisioneiros políticos como “bancos de peças” humanas, como já foi denunciado na China.
Imortalidade não é sobre ciência — é sobre poder
No fim, o que Putin, Xi e Kim demonstram não é interesse pela longevidade humana, mas pela perpetuação do poder.
Eles não querem viver para ver o futuro — querem garantir que o futuro nunca exista sem eles.
A imortalidade, para o tirano, é apenas a extensão natural do autoritarismo: primeiro controla-se a mente, depois o corpo, e por fim o tempo.
Mas o livre mercado, a concorrência e a liberdade individual dependem exatamente da finitude.
Morrer é trágico — mas é também o que mantém o mundo vivo, renovado e dinâmico.
Sem o limite da vida, não haveria inovação, coragem ou mudança.
Conclusão: o preço da eternidade
O ser humano pode até descobrir como retardar o envelhecimento, regenerar tecidos e viver mais —
mas enquanto não aprender a respeitar a liberdade do outro, continuará preso à mesma escravidão de sempre.
A verdadeira imortalidade não está em transplantes nem em DNA sintético.
Está nas ideias que sobrevivem ao corpo — e nenhuma ideia é mais duradoura que a da liberdade individual.
Enquanto Putin e Xi sonham com corpos eternos, nós sonhamos com sociedades onde ninguém precise ser deus para viver bem.
E se um dia descobrirmos como viver para sempre, que seja para aperfeiçoar a liberdade, não para eternizar a tirania.
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